Humanidades

Bullying não é caso isolado, mas dinâmica coletiva, aponta estudo internacional
Pesquisa publicada em revista científica mostra que violência escolar se sustenta em redes de silêncio, incentivo e exclusão; especialistas defendem virada participativa nas políticas educacionais
Por Laercio Damasceno - 31/01/2026


Domínio púbico


O bullying escolar não é um conflito entre dois indivíduos, mas um fenômeno social sustentado por redes coletivas que envolvem agressores, vítimas, espectadores e instituições. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo científico publicado nesta semana, na revista internacional Children, editada pela MDPI, que reúne pesquisadores da Universidade de Valladolid (Espanha) e da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (UNAH).

Assinado pelos sociólogos Manuel Montañés-Serrano, Iving Zelaya-Perdomo e Esteban A. Ramos Muslera, o artigo analisa décadas de pesquisas sobre violência escolar e propõe uma mudança estrutural na forma como escolas e governos enfrentam o problema. “O bullying funciona como um mecanismo de construção de identidade de grupo, baseado na exclusão sistemática de determinados ‘outros’”, afirmam os autores.

Segundo o estudo, abordagens tradicionais — focadas em medir prevalência ou identificar traços individuais de agressores e vítimas — falham em explicar por que o bullying persiste. A violência, dizem os pesquisadores, só se mantém porque encontra apoio explícito ou tácito em colegas que incentivam, silenciam ou se omitem diante das agressões.

Violência normalizada e impacto duradouro

A pesquisa dialoga com dados da Unesco que indicam que a violência entre pares compromete o desempenho escolar, a saúde mental e o desenvolvimento social de crianças e adolescentes, além de afetar o clima institucional das escolas. O impacto se estende à vida adulta, com maior risco de depressão, evasão escolar e dificuldades de inserção social.

Para Montañés-Serrano, do Departamento de Sociologia e Serviço Social da Universidade de Valladolid, o erro histórico foi tratar o bullying como um desvio individual. “Quando a escola responde apenas com punição, sem mexer nas normas culturais e nos pactos de silêncio, o problema tende a se reproduzir, muitas vezes de forma mais sofisticada”, esclarece o pesquisador.

Figura - Processo metodológico da construção participativa da coexistência pacífica 

O estudo defende a adoção de metodologias participativas, envolvendo estudantes, professores, famílias e gestores na construção de planos de convivência escolar. A proposta se apoia em experiências documentadas em países como Espanha, Polônia e Austrália, onde estudantes atuam como agentes ativos na identificação de conflitos e na formulação de soluções.

“A prevenção só funciona quando se desmonta a base social que sustenta o agressor”, afirma Iving Zelaya-Perdomo, pesquisador do Instituto de Pesquisa em Humanidades da UNAH. “Isso exige criar um clima coletivo favorável à diversidade e à intervenção solidária, rompendo com a ideia de que quem sofre violência ‘merece’ o que acontece”.

Historicamente, políticas educacionais trataram o bullying como um problema disciplinar. O artigo propõe um deslocamento: da lógica punitiva para a construção coletiva de normas, com protagonismo estudantil e formação continuada de professores.

Para Esteban Ramos Muslera, do Instituto Universitário de Democracia, Paz e Segurança da UNAH, a escola precisa ser vista como um espaço político. “A convivência não se decreta por regulamento. Ela se constrói com participação, escuta e corresponsabilidade”, alerta o autor.

Repercussão e desafios

Especialistas ouvidos pelo estudo alertam que a adoção desse modelo exige investimento público, tempo institucional e mudança cultural. Ainda assim, os autores defendem que o custo da inação é maior. “Ignorar o caráter coletivo do bullying é perpetuar uma forma silenciosa de violência estrutural”, conclui o artigo.

Domínio público

Em um cenário de crescimento do cyberbullying e de maior exposição de crianças e adolescentes a ambientes digitais hostis, o estudo reacende o debate sobre o papel da escola na formação democrática. Mais do que conter conflitos, dizem os pesquisadores, trata-se de redefinir quem pertence ao “nós”.


Detalhes da publicação
Metodologias participativas para lidar com o bullying escolar: uma visão geral e diretrizes metodológicas.. Manuel Montañés-Serrano; Iving Zelaya-Perdomo; Esteban A. Ramos Muslera. Crianças - 2026 , 13 (2), 214; https://doi.org/10.3390/children13020214

 

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